Há muitas histórias sobre o Carnaval curitibano – algumas folclóricas. Talvez por conta do perfil de nossos colonizadores, vindos majoritariamente das regiões mais geladas da Europa, sempre fomos vistos como pouco afeitos às manifestações momescas.
Beirando os 80, guardo da infância lembranças esparsas de bailes realizados apenas em clubes, como se vigorasse um decreto municipal proibindo a folia nas ruas. Havia, claro, alguns obstinados dispostos a nadar contra a corrente majoritária. Um deles foi o escritor Dante Mendonça que, em 1976, propôs a Anfrísio Siqueira, presidente da “Boca Maldita”, a criação da “Banda Polaca” – iniciativa que resistiu por alguns anos, mas não criou raízes duradouras.
Prova de nossa resistência congênita ao chamado “tríduo momesco” é a história contada pelo notável Luiz Geraldo Mazza, já falecido. Estando na Boca Maldita, convidou o “Nêgo Esmaga” – apelido de Alvino Cruz, personagem folclórico da cidade, conhecido por sua irreverência – para acompanhar a banda ali ao lado, na Praça Zacarias. Segundo Mazza, o Esmaga respondeu:
– Mas não fica ruim para nós?
Seja como for, a Banda Polaca “não pegou”. Apesar da insistência de alguns, teve vida curta e, em 1982, deixou de existir.
Outra tradição pitoresca do nosso Carnaval envolvia a antiga Chefatura de Polícia, na Rua Barão do Rio Branco, onde eram recolhidos os que exageravam na folia. A partir da sexta-feira, foliões apreendidos por brigas e confusões – quase sempre potencializadas pelo excesso de álcool – eram “armazenados” no local, sendo liberados apenas ao meio-dia da Quarta-Feira de Cinzas.
Nesse horário, formava-se uma plateia considerável para receber – ou apupar – os recém-libertados, muitas vezes sob o olhar envergonhado – e raivoso – das famílias que já sabiam onde seus parentes haviam passado os dias anteriores.
O grupo ganhou um nome memorável: “Bloco O Que Eu Vou Dizer Lá em Casa”.
Mas a melhor história que ouvi sobre o Carnaval curitibano foi-me contada há décadas.
Certo médico, na noite da segunda-feira de Carnaval, alegando um chamado para atendimento domiciliar, foi conferir o concurso “A Bem Bolada”, na Sociedade Operário, na Praça João Cândido. Lá, embalado por sucessivas doses etílicas e enlevado pela formosura de uma participante, aceitou o convite para acompanhá-la até sua casa, ali perto.
Foi conduzido ao quarto da moça, no alto de um dos antigos casarões da região, com a recomendação expressa de manter silêncio para não acordar os velhos pais.
Sob a influência do álcool, adormeceu.
Despertou já com o sol alto, tomado pelo desespero: não lembrava exatamente do que acontecera, não sabia onde estava e, pior ainda, não fazia ideia do que diria em casa. Um lampejo de alívio surgiu quando imaginou poder explicar à esposa que o agravamento do estado do paciente exigira internação hospitalar, onde permanecera ao lado dele durante a noite.
– “Já amanheceu, posso ir embora”, pensou.
Foi então que a companheira entrou no quarto e trouxe a pior notícia: aquela era a residência de uma tradicional família curitibana para a qual ela trabalhava.
Para deixar a parte superior da casa, teria necessariamente de atravessar a área onde os proprietários e seus filhos circulavam. A saída discreta só seria possível à noite, quando todos estivessem recolhidos.
O desespero tomou conta do tardiamente arrependido folião, que ali teve que permanecer o dia inteiro, até que todos já tivessem se recolhido.
Desnecessário dizer que seu casamento foi encerrado assim que conseguiu, finalmente, retornar à própria residência. Sem nem mesmo ter podido tomar um banho e livrar-se dos resquícios carnavalescos, a esposa o expulsou de casa – sugerindo que retornasse “ao atendimento domiciliar” .
Imagem gerada por I.A.

