Há uma música composta por Belchior e Fagner que, nesta tarde de Curitiba “chuventa e friosa”, após o sofrimento provocado pela nossa seleção, voltou à minha memória. Ela fala em “estar posto em sossego”. Curiosamente, eu já conhecia essa expressão havia muitos anos e ao pesquisar descobri que ela pertence ao português clássico e popular.
Pois então: com o Brasil praticamente parado para assistir à vitória por 2 a 1 sobre o Japão, um daqueles jogos que servem como verdadeiro teste cardiológico, pus-me a pensar, mais uma vez, nesse fenômeno curioso e, ao mesmo tempo, revelador que se repete a cada quatro anos: o chamado patriotismo quadrianual, ou futebolístico.
De repente, ruas, casas, lojas e automóveis se enchem de verde e amarelo. Bandeiras tremulam nas janelas, adesivos são colados nos carros e a camisa da seleção passa a ser quase um uniforme obrigatório. É a Copa do Mundo chegando e, com ela, o ressurgimento da chamada “Pátria de Chuteiras”.
Não há absolutamente nada de errado em vibrar pelo nosso país e torcer pela seleção. Eu mesmo faço isso e, como milhões de brasileiros, cheguei a pensar, quando o Japão abriu o placar, que “a vaca tinha ido para o mato com cincerro, corda e tudo”. O futebol faz parte da nossa cultura, da nossa identidade e do nosso jeito de ser.
O problema começa quando esse amor à pátria se limita ao espetáculo esportivo e desaparece junto com o apito final do último jogo.
Comparemos esse cenário com a Semana da Pátria, celebrada entre os dias 1º e 7 de setembro. Quantas ruas são enfeitadas? Quantas casas hasteiam a bandeira nacional? Quantas pessoas vestem o verde e amarelo com o mesmo entusiasmo, livres da ideia de que essas cores pertençam a este ou àquele partido ou candidato?
Muito poucas.
As cores da nossa bandeira pertencem ao Brasil. Não deveriam ser patrimônio de nenhum partido, governo ou candidato.
A maioria segue indiferente, como se o amor ao Brasil só merecesse ser demonstrado quando há uma bola rolando em campo.
Ser patriota não é apenas torcer.
Ser patriota é cuidar. É respeitar o próximo. É cumprir deveres, cobrar direitos, preservar os espaços públicos, até fazer o básico, elementar, como não jogar lixo nas ruas, agir com honestidade e fazer a nossa parte para construir um país mais justo, ético e desenvolvido.
A verdadeira pátria não está apenas no gramado. Ela está presente em cada atitude do nosso dia a dia.
Não por acaso, daqui a pouco mais de quatro meses iremos às urnas para escolher Presidente da República, Governadores, Senadores, Deputados Federais e Deputados Estaduais. É inevitável perceber o contraste entre a paixão que dedicamos a uma partida de futebol e o desinteresse com que muitos encaram decisões capazes de influenciar os destinos do país por muitos anos.
Que tal levarmos um pouco do entusiasmo da Copa para os demais dias do ano?
Que tal transformarmos o patriotismo quadrianual em patriotismo cotidiano, consciente e responsável?
Que a próxima vitória do Brasil aconteça não apenas dentro dos estádios, mas também nas ruas, nas escolas, nos hospitais, nas fábricas e demais locais de trabalho e nas urnas.
Essa, sim, é a Pátria que merece o nosso amor. E esse amor não deveria durar apenas noventa minutos – e nem mesmo com prorrogação, penaltis e palpitação no coração.
Pense nisso.


