Quando a Páscoa e o Pessach se Encontram

Todos os anos acontece a mesma coisa – e, curiosamente, pouca gente percebe.

Cristãos celebram a Páscoa.
Judeus celebram o Pessach.

As datas quase sempre coincidem. Este ano, então, praticamente caíram juntas – e não é por acaso.

A palavra inglesa “Passover” – é, na verdade, uma tradução direta do hebraico Pessach, que significa “passar por cima”.

A referência vem do episódio bíblico em que, durante a décima praga do Egito, D’us “passou por cima” das casas dos hebreus, poupando seus primogênitos.

Mas, embora compartilhem uma raiz histórica comum, as duas celebrações seguem caminhos bem diferentes.

Para os cristãos, a Páscoa celebra a ressurreição de Jesus Cristo, símbolo maior de fé, redenção e vida eterna.

Para os judeus – que ainda aguardam a vinda do Messias – o Pessach marca a saída do Egito, o fim da escravidão e o nascimento de um povo livre.

O Pessach não dura um dia só. São oito dias de lembrança e reflexão – e tudo começa com o Seder.

Seder – que em hebraico significa “ordem” – é o jantar ritual do Pessach, no qual cada gesto, alimento e palavra seguem uma sequência que reconta a saída do Egito.

O primeiro deles começou na quarta-feira.

Não é apenas uma lembrança histórica.
É, sobretudo, uma reflexão anual sobre o que significa ser livre.


A liberdade não veio pronta

Há, porém, um detalhe pouco comentado – e profundamente revelador.

Nenhum dos judeus que saiu do Egito entrou na Terra Prometida.

Nenhum.

Nem mesmo Moisés.
A ele foi concedido apenas olhar a Terra Prometida, do alto do Monte Nebo, às margens do Jordão..

À primeira vista, parece duro. Injusto, até.

Mas a tradição judaica oferece uma leitura mais profunda: aquela geração havia vivido tempo demais como escrava.

Carregava consigo o medo, a dependência, a insegurança.

Em outras palavras, a escravidão não estava mais no Egito – estava dentro deles.

E liberdade, como a própria história nos ensina, não é algo que se recebe – muito menos algo que “cai do céu”.

É algo pelo qual se luta. E, sobretudo, algo que se aprende.

Por isso, foi necessária uma nova geração – nascida no deserto – para finalmente entrar na Terra Prometida.


O pão que não pode esperar

Na Quaresma, período que antecede a Páscoa, muitos cristãos evitam carne vermelha.

Já para os judeus, durante o Pessach, há uma proibição bem conhecida: não se consome nada fermentado – o chamado chametz.

Isso inclui alimentos derivados de trigo, cevada, centeio ou aveia que tenham fermentado.

Nada de pão, bolos ou massas.

Em seu lugar, entra a matzá – um pão achatado, simples, sem fermento.

A explicação mais conhecida é prática: na pressa da fuga do Egito, não houve tempo para o pão crescer.

Mas, novamente, a tradição vai além.

O fermento, dizem os sábios, simboliza o inchaço, o ego, o excesso.

Retirá-lo da alimentação por alguns dias é um exercício de humildade – quase uma “faxina espiritual”.

Uma forma de lembrar que a liberdade também exige desapego.


Duas histórias, uma mesma pergunta

Conhecedor dos fundamentos de ambas as tradições – por ter estudado por algum tempo em um colégio Adventista – fui buscar compreender melhor essas duas celebrações para compartilhar com meus leitores.

Ao final, a conclusão se impõe:

Páscoa e Pessach caminham lado a lado no calendário, mas apontam para dimensões diferentes da experiência humana.

Uma fala de ressurreição.
A outra, de libertação.

Mas ambas, no fundo, nos provocam com a mesma pergunta:

do que, afinal, precisamos ser libertados?

Porque, convenhamos, para os judeus, sair do Egito foi apenas o começo. Assim como, para os cristãos, a ressurreição também não é um fim – mas um recomeço.

Que seja assim para todos nós, então!

“Desafie seu Faraó
Abandone seu Egito
Atravesse seu Mar Vermelho
Enfrente seu deserto
Alcance sua Terra Prometida”


Imagem gerada por I.A.

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