Sabe Quando Um Texto é Tão Lindo Que Não pode Ficar Só no Facebook?

O texto a seguir foi publicado hoje pela Marcia Oleskovicz Fruet em sua página no Facebook.

É a homenagem às Bodas de Ouro dos pais, Maria & Antonio, um casal querido que deu ao mundo três filhas: a Dina, a Sonia e a Marcia, a caçula.

Eu li e reli e pensei em como seria bom se mais gente se emocionasse com um texto tão maravilhoso.

Leia e veja como eu tinha razão. 

p.s.: à Maria e ao João, mais 50 anos!

Paciência dos Neves, 27 de abril de 1968.

A mulher era Maria. Bonita, forte, cabelos compridos, negros, olhos de verde azul a depender da luz. De trabalho na enxada entendia bem, como as lidas da casa. Acabara de entrar na maioridade. Era hora de contrair matrimônio. 

O homem alto, forte, rosto anguloso, cabelo cortado a la reco, da safra do Batalhão Catarina que serviu no Rio de Janeiro, vindo direto do seminário. Antonio. Família imensa: 15 irmãos, dois anjinhos que se foram de crupe. Se queria comer, haveria de plantar. Pai polaco, duro, rédea em punho. Sem trejeitos pro namoro.

Não sei se beijaram-se no tempo da conquista ou se a crueza da lavoura limitou os gestos do coração. Se pegaram na mão, se sentaram lado a lado na missa, se trocaram bilhetes. Imagino que depois da reza e da janta, fogão a lenha para aguentar a geada, lampião apagado, cada um na sua casa, com seu cansaço próprio, suas ilusões próprias, sonhavam com o devir. Não porque cultivavam o hábito de ambicionar por algo, mas porque o sonho é remédio, cura o corpo, embebece a alma. E vem com a gente, parte integrante do nosso frágil conjunto.

Casaram como se fazia entre Paciência dos Neves e Fartura. Famílias se embolavam num tal de irmão dele com irmã dela, irmã dela com irmão dele, até que tudo virasse uma família só. Ou algumas famílias entre si. E, por isso, na minha memória, dia de festa era um sem fim de primos e primas, correndo pelo mato, tomando banho de rio, levando coice de vaca. Tudo se aquietava quando o sol sumia.

Não sei se são um para o outro o sonho que tiveram. Ou se a vida se encarregou de os moldar de acordo com os ventos, as dores, as alegrias, as geadas, as secas, as doenças, o êxodo. Fato é que estão juntos, brigam juntos, entre si, sozinhos, com a sombra, todos os dias, e não se largam até hoje, 50 anos depois.

Bodas de Ouro. Parabéns, minha mãe e meu pai. Obrigada por não se desistirem, pela coragem de conceber esta terceira filha, pipa avoada, que nem sempre consegue estar próxima pra dizer o quanto ama vocês!

(Li agora de Rubem Alves que “a alma tem nostalgia das origens”. É disso que somos feitos.)

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