
Filho e neto de imigrantes judeus, olho para o Brasil de hoje e me pergunto onde foi parar o país com que meus avós sonharam.
Meus quatro avós eram imigrantes.
Os paternos – Salomão e Sofia – deixaram Balta, na região de Odessa, território hoje pertencente à Ucrânia, em meados de 1910, quando aquela terra ainda fazia parte do Império Russo.
Costumo dizer que ninguém abandona seu torrão natal por excesso de felicidade. Os que o fizeram – e, desafortunadamente, ainda vemos isso acontecer – estavam fugindo da perseguição, da fome, da intolerância religiosa ou de razões políticas. Muitas vezes, de tudo isso ao mesmo tempo.
E assim foi com eles – como foi com tantos outros que, ao longo da História, tiveram de deixar para trás família, bens e sonhos e atravessar oceanos em busca de uma nova vida.
A região onde nasceram – e onde seus ancestrais viveram por séculos – passou por inúmeras mudanças geopolíticas. O que nunca mudava era o humor dos governantes em relação aos judeus.
Assim, já com dois filhos, Sara e Moyses, partiram rumo à Argentina. Buenos Aires abrigava então uma incipiente colônia judaica e funcionava como uma espécie de Nova York do Hemisfério Sul, atraindo legiões de judeus escorraçados de seus países de origem.
Lá nasceu José, o terceiro filho do casal.
Marceneiro de profissão, vovô Salomão, depois de dois anos de dificuldades, foi aconselhado por patrícios a mudar-se para o sul do Brasil, onde havia abundância da matéria-prima necessária ao seu ofício: madeira. E assim vieram estabelecer-se definitivamente em Curitiba.
Aqui nasceram Bertha, em 1918; Rosa, em 1919 – falecida prematuramente em 1921 – ; e o caçula Isaac, meu pai, em 1923.
Pelo lado materno, meus avós Moses e Eugênia deixaram a Lituânia, outro lugar pouco amigável aos judeus e, ironicamente, foram justamente para a Alemanha, onde em 1925 nasceu Selda, minha mãe.
Em 1934, já com um segundo filho, Isaak, embarcaram para o Brasil a tempo de escapar da besta-fera que já havia chegado ao poder.
Aqui, em 1937, nasceu minha tia Nena, que as pessoas que conhecem minha história sabem que, em circunstâncias dolorosas, mais tarde substituiria minha mãe e acabaria sendo também a avó de meus filhos.
Faço esse breve histórico para contextualizar o motivo que me levou hoje a publicar o Hino Nacional Brasileiro interpretado pela Orquestra Philarmônica São Paulo e pelo tenor italiano Davide Carbone.
A gravação foi feita em 13 de dezembro de 2012, na abertura do concerto de Andrea Bocelli, em São Paulo.
Sou um brasileiro que sempre se emocionava ao ouvir o hino sendo cantado nos estádios antes dos jogos e que vibrava, com os filhos ainda pequenos, nos desfiles de 7 de Setembro.
Lamento ver que dois deles, assim como fizeram os bisavós, atravessaram mares em busca de seus sonhos.
Entristece-me pensar que talvez os outros tenham de fazer o mesmo, recorrendo agora à recente nacionalidade propiciada pela Alemanha – o mesmo país que, lá atrás, carimbou “staatenlos” (“apátrida”) no passaporte de sua avó.
Enquanto isso, já passado dos 78 anos, assisto perplexo ao embate que, sob o pretexto de ser ideológico, tornou-se irracional, com extremos representados por lulistas e bolsonaristas agindo como se não houvesse alternativa melhor para o país além dos modelos que defendem.
Estou cansado de uns e de outros.
Cansado de ter de explicar que desejo mais do que isso. Que desejo também um STF mais qualificado, com ministros escolhidos por um perfil tecnicamente irrepreensível – e não por vínculos religiosos, políticos ou ideológicos.
Estou cansado de discutir com amigos, familiares e pessoas inteligentes que reduziram tudo à lógica do “100% certo” ou “100% errado”.
Perdi a paciência com os que ignoram que o projeto da esquerda fracassou ao enveredar pelos caminhos da corrupção e dos interesses pessoais.
Da mesma forma, estou cansado dos que, para livrar-se disso, elegeram um político de passado obscuro e que se revelou ignorante, autoritário e preconceituoso e em cujo filho agora depositam suas esperanças.
Não falta muito para 4 de outubro.
Quero poder votar em alguém por sua capacidade, por seu desejo de fazer as transformações que nosso país anseia.
Quero apenas o Brasil sonhado pelos meus avós.
Será que dar adeus ao Bolsonarismo e ao Lulopetismo é querer demais?
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