Há poucos meses passei a ter direito ao passaporte alemão. Não por mudança de país, mas pelo reconhecimento da origem de minha mãe, que, ainda criança, com os pais e um irmão menor, foi forçada a deixar a Alemanha por conta da insanidade da besta-fera responsável pelo Holocausto.
É estranho constatar que um documento novo, nas mãos da mesma pessoa, faça tanta diferença. Cabe a pergunta: no meu caso, além da reparação moral, o que mudou? A quantidade de portas que se abrem.
Não se trata de vaidade nem de coleção de carimbos. Trata-se de mobilidade. De liberdade prática.
Vivemos uma nova era, em que as relações pessoais e profissionais são, em grande parte, reguladas pelas viagens. É cada vez mais comum encontrarmos famílias de perfil internacional, cujo núcleo reúne pessoas que, além da nacionalidade original – conferida, na maioria dos casos, pelo país onde nasceram – possuem outras, obtidas por trabalho, casamento ou circunstâncias diversas.
Mas, voltando ao que dizia: no meu caso, o direito ao passaporte alemão pouco alterou minha vida e tem importância mais simbólica e emocional. Foi assim que há poucos dias, ao visitar o cemitério para lembrar o 61º aniversário da passagem de minha mãe, levei comigo o certificado da cidadania alemã – e, com isso, dei o assunto como encerrado.
Não estou planejando mochilar pela Europa, muito menos iniciar carreira internacional. Novas viagens ao exterior, se ocorrerem, serão pontuais.
Aos 78 anos, minha geografia é sobretudo afetiva: família, amigos, minha Curitiba e um ou outro destino em nosso belo Brasil; fora isso, quando muito, aqueles que ainda me permitirão visitar a filha mais velha nos Estados Unidos e o segundo filho, em Portugal.
Mas volto ao ponto central: uma experiência recente mostrou, de forma concreta, como um documento pode alterar a forma como o mundo nos recebe.
O mencionado segundo filho aproveitou uma visita a Curitiba para concluir o processo de concessão da cidadania alemã. Já de posse do passaporte, retornou à Europa e, ao desembarcar, entrou pela primeira vez na fila destinada aos cidadãos da Comunidade Europeia.
A diferença, relatou, foi notável. Enquanto a fila dos brasileiros avançava lentamente, submetida às perguntas costumeiras e à demora provocada pelo grande número de conterrâneos que viajam para lá, a dos europeus fluía com naturalidade quase automática.
Era a mesma pessoa. O mesmo rosto.
O que mudou foi o documento apresentado.
E já que o tema é esse, atualizo a informação que publiquei no ano passado sobre a classificação global dos passaportes, organizada pelo Global Passport Power Rank. O ranking classifica os passaportes de todo o mundo de acordo com o grau de mobilidade que proporcionam – medido, em primeiro lugar, pelo número de países que permitem entrada sem visto prévio; em seguida, aqueles que concedem visto na chegada; e, por fim, os que exigem visto antes do embarque.
A listagem é atualizada em tempo real com base em dados oficiais de governos e companhias aéreas. Para quem viaja com frequência – seja a turismo, seja a negócios -, trata-se de informação relevante.
Segundo os critérios mais recentes, os Emirados Árabes Unidos mantêm a primeira posição. O Brasil caiu duas colocações, passando do 11º para o 13º lugar. A Alemanha integra o grupo da terceira posição.
Em números: com o passaporte alemão é possível entrar em 131 países sem visto; em 43 o visto é concedido na chegada; e apenas 24 exigem autorização prévia. Já o passaporte brasileiro permite entrada sem visto em 117 países; 46 concedem visto no desembarque; e 35 exigem obtenção antecipada.
Os passaportes, portanto, não têm o mesmo peso. Alguns funcionam como verdadeiras chaves-mestras globais; outros exigem mais burocracia, mais explicações, mais filas.
O curioso é que nada mudou em mim. Dependendo do passaporte apresentado no guichê, o mundo reagirá de forma diferente. Não é a pessoa que muda. É a percepção do país que ela representa.
Continuo falando português com sotaque curitibano, torcendo pelo Brasil nas Copas e esperançoso de que, nas próximas eleições, escolhamos o melhor dirigente possível para o país.
Não se trata apenas de turismo. Trata-se de confiança institucional.
O passaporte é, no fundo, uma declaração silenciosa de credibilidade internacional. Ao olhar para o ranking global, não estamos vendo apenas números – estamos constatando como o mundo classifica nações e, por consequência, seus cidadãos.
Um documento assim é pequeno no tamanho.
Mas, para quem o possui e ama o chão onde nasceu, é enorme no significado.
Para acessar o ranking global de passaportes, clique aqui.

Imagem gerada por I.A.

