
Matéria publicada hoje no site El País expõe o problema do abuso sexual nas categorias de base do futebol brasileiro:
Denúncia de abuso sexual estremece o mais famoso celeiro de jogadores do Brasil
“Nunca contei a ninguém sobre o que aconteceu. Só queria esquecer e continuar jogando futebol, mas não consegui”, diz Ruan Pétrick, que acusa ter sido molestado aos 11 anos por um dirigente do Santos
Seguir os passos do conterrâneo Paulo Henrique Ganso e trilhar o caminho bem-sucedido de Neymar. Foi com esse pensamento que Ruan Pétrick Aguiar de Carvalho saiu de casa aos 10 anos, em Marabá, no interior paraense, para embarcar rumo a São Paulo com um time amador. Mas, ao contrário do que sempre sonhou, seu nome não ganharia o noticiário como mais uma história em que o menino pobre alcança o estrelato da bola. Na última semana, ele procurou a polícia para registrar queixa contra Ricardo Marco Crivelli, o Lica, coordenador das categorias de base do Santos Futebol Clube, por abuso sexual. Lica nega a acusação, mas a Delegacia de Repressão e Combate à Pedofilia na capital paulista abriu inquérito para investigar o caso.
A denúncia de abuso sexual contra um homem forte da diretoria estremeceu os bastidores do Santos. Surge no momento em que uma ala de oposição pede o impeachment do presidente José Carlos Peres, eleito no fim de 2017, após descobrir que o mandatário é sócio de Ricardo Crivelli em uma empresa de agenciamento de atletas. Ruan diz que ganhava 1.000 reais como jogador da base – 700 pagos pelo Santos e outros 300 desembolsados pela sociedade de Peres e Lica. Na última quinta-feira, em entrevista coletiva, o presidente santista negou ter feito pagamentos a Ruan e argumentou que a empresa em questão está inativa.
Uma semana depois de tomar conhecimento da suspeita contra Lica, o Santos decidiu afastar o coordenador do cargo. A denúncia à polícia já havia sido revelada pela Folha de S. Paulo. Embora afirme que tenha sido duro com Lica ao cobrar explicações, Peres insinuou que a queixa de Ruan esteja sendo utilizada por adversários políticos para fragilizar sua gestão e alertou para que não se transforme a suspeita em uma “nova Escola Base”, em referência ao casal que dirigia um colégio particular em São Paulo e foi acusado de molestar alunos, mas acabou inocentado pela Justiça.
Lica ainda não se pronunciou. De acordo com seu advogado, Adriano Vanni, que já lidou com outro caso midiático envolvendo denúncias de abuso sexual – o do médico Roger Abdelmassih, condenado a 181 anos de prisão por estupro de 37 pacientes –, o dirigente afastado do Santos rechaça com veemência a hipótese de ter abusado de Ruan. “Ele trabalha há muitos anos com garotos e nunca teve uma mácula na carreira. Confiamos na investigação policial. É questão de tempo para a verdade vir à tona.” Lica deve ser ouvido nas próximas semanas pela Delegacia de Repressão e Combate à Pedofilia, que, além de investigar a acusação de abuso e o suposto vínculo entre Lica e Ronildo de Souza, já colheu o depoimento de uma testemunha que também alega ter sido assediada por Crivelli no mesmo alojamento de Ruan.
Crianças desprotegidas no futebol
O Santos é um dos mais tradicionais celeiros de jogadores da América do Sul. Já revelou craques como Pelé, Robinho e Neymar, que ajudaram a moldar a fama dos “Meninos da Vila”, como são conhecidos os garotos formados no Peixe. Ricardo Crivelli, que já havia prestado serviços a clubes como Portuguesa e São Paulo, chegou à base santista em 2008 por indicação de José Carlos Peres, que na época era apenas superintendente do clube. Bancado pelo Santos, viajava aos lugares mais remotos para realizar peneiras à procura de novos talentos. O fato de ter garimpado nomes como o atacante Gabriel Barbosa, o Gabigol, e os laterais Alex Sandro e Danilo, que hoje jogam na Europa, garantiu ao olheiro prestígio e autonomia no trabalho com os garotos.

Sonia Roman, psicóloga do Santos por mais de uma década, afirma que nunca recebeu queixas de abuso sexual contra Lica ou qualquer profissional da base durante sua passagem pelo clube, que durou até 2010. Porém, ela conta que sempre suspeitou da atuação de abusadores no entorno de meninos que chegavam de vários cantos do país para testes. A maioria deles, assim como Ruan, vivia em casas, alojamentos e pensões próximas ao clube. Roman visitava com frequência essas concentrações em busca de pistas que pudessem indicar um possível aliciamento por parte de técnicos, olheiros e empresários. Mas jamais conseguiu romper barreiras que vão além dos portões do clube.
“O foco da minha apuração era fora do Santos”, diz a psicóloga. “Eu tinha uma relação aberta com os garotos e perguntava: ‘Alguém passou a mão em você?’. Mas eles não entregavam. O futebol é um ambiente que não proporciona diálogo. Há uma hierarquia muito rígida dos mais velhos para os mais novos. E os meninos têm medo de confrontá-la.”
Ruan revela ao EL PAÍS que uma profissional do clube, logo em seus primeiros dias na base do Santos, chegou a questionar se ele já havia sofrido assédio sexual. Mas ele teve medo de contar sobre a suposta investida de Lica. “Achava que, se eu falasse a verdade, minha carreira no futebol poderia ser prejudicada.” Depois, quando já não jogava mais no Santos, o motivo para manter o silêncio era outro. “Nunca contei a ninguém sobre o que aconteceu, nem para o pastor da minha igreja. Eu sentia vergonha e até um pouco de culpa. Por isso tinha certeza de que esse segredo ia morrer comigo.”
Para Sonia Roman, a falta de um protocolo de prevenção e combate ao abuso sexual nas categorias de base coloca em perigo crianças e adolescentes, sobretudo aqueles que vivem longe de suas famílias em nome do sonho de se tornar jogador. “Não é só no Santos”, ressalta a psicóloga. “Abusadores e pedófilos estão em todo lugar que abrigue vítimas potenciais. E o futebol, um meio em que o tema do abuso sexual é tabu, atrai muitos deles. Os clubes deveriam ter um plano de ação não só para acompanhar de perto o trabalho de profissionais que lidam com crianças, mas também para alertar pais e jogadores sobre os riscos desse ambiente.”
Em 2014, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) assinou um pacto com o Congresso Nacional em que se comprometia a adotar 10 medidas para combater o abuso sexual nas categorias de base. Porém, a entidade ainda não colocou em prática a maioria das providências sugeridas pela CPI da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Recentemente, na Argentina, denúncias de abuso de jovens atletas do Independiente e River Plate fizeram com que o parlamento local convocasse a Associação do Futebol Argentino (AFA) e os clubes para a elaboração de um protocolo de proteção infanto-juvenil.
Na entrevista concedida esta semana, José Carlos Peres assegurou que o Santos abriu uma sindicância interna para apurar a denúncia de abuso sexual. Também implorou para que a “marca Meninos da Vila” seja respeitada. Ruan, por sua vez, se diz decepcionado com o clube. Segundo seu advogado, Marcello Monteiro, a equipe santista não ofereceu amparo psicológico nem auxílio jurídico ao ex-atleta da base. “Minha intenção não é prejudicar o Santos”, afirma Ruan. “Só denunciei depois de tanto tempo porque não queria que ele [Lica] fizesse isso de novo comigo ou com outro jogador. Eu não podia mais ficar calado.”
Hoje, aos 19 anos, Ruan Pétrick busca um novo clube para tentar retomar a trajetória nos gramados. Atacante que joga pelas pontas, tal qual Neymar, que despontava na equipe profissional do Peixe enquanto ele integrava as categorias de base, tem mais esperança de vingar no futebol após romper o silêncio tido como seu maior adversário nos últimos anos. “O que eu sei fazer é jogar bola. Vou continuar tentando. Mas agora me sinto bem melhor, aliviado. Recebi mensagens de muita gente me apoiando. Sei que algumas pessoas já sofreram coisa pior, foram abusadas pelo pai, pelo irmão. Isso é triste demais. Espero que meu exemplo ajude a dar coragem para que outros também denunciem.”

