Nem Bolsonarismo, Nem Lulopetismo: Brasileirismo

Meus 4 avós eram imigrantes.

Meu pai era o caçula dos 5 filhos de um casal que no início do século 20 saiu de uma região da Rússia e que depois foi Polônia e hoje é Ucrânia. Salomão e Sofia Guelmann tinham então os pequenos Sara e Moyses.  

A região onde nasceram e seus ancestrais estavam há séculos teve muitas mudanças em sua geopolítica. O que não mudava nunca era o humor dos governantes em relação ao judeus.

Costumo dizer que jamais alguém saiu de seu torrão natal por excesso de felicidade, e assim foi com eles e com todos que historicamente tiveram que abandonar família, bens e sonhos e singrar oceanos em busca de nova vida.

Salomão e Sofia chegaram a Curitiba em 1912 após rápida passagem pela Argentina. A capital, Buenos Aires, era então uma espécie de Nova York do hemisfério sul e atraia legiões de judeus escorraçados de seus lugares de origem.

Marceneiro de profissão, meu avô lá viu nascer José, o 3º filho, e ao cabo de 2 anos e enfrentando dificuldades, foi aconselhado por patrícios a mudar para o sul do Brasil pela abundância de madeira, a matéria-prima para seu ofício.

Em Curitiba nasceram mais uma filha, Bertha, em 1918, e Isaac, meu pai, em 1923.

Pelo lado materno meus avós Moses e Eugênia saíram da Lituânia, outro lugar nada amigável aos judeus e, ironia, foram exatamente para a Alemanha, onde em 1925 nasceu Selda, minha mãe. Em 1934 e já com um 2º filho, Isaak, embarcaram para o Brasil a tempo de escapar da besta-fera já no poder.

Aqui, em 1937, nasceu minha tia Nena, que as pessoas que conhecem minha história sabem ter substituído mais tarde a minha mãe e é a avó de meus filhos.

Faço esse histórico para contextualizar o que me levou hoje a postar o Hino Nacional Brasileiro interpretado pela Orquestra Philarmônica São Paulo e pelo tenor italiano Davide Carbone.

A gravação foi feita em 13/12/2012, na abertura do concerto de Andrea Bocelli, em São Paulo.

Sou um Brasileiro que se emociona com o hino cantado no jogo e que vibrava com os filhos ainda pequenos nos desfiles de 7 de setembro. Lamento ver que dois deles, assim como fizeram os bisavós, atravessaram mares em busca de seus sonhos. Me entristece também pensar que os outros talvez tenham que fazer o mesmo, agora recorrendo à nacionalidade oferecida pela Alemanha que grafou “staatenlos” (apátrida) no passaporte da avó.

Enquanto isso, próximo dos 74 anos, assisto perplexo o embate que a pretexto de ser ideológico tornou-se irracional, com extremos representados por Lulistas e Bolsonaristas agindo como se não houvesse alternativa ou uma solução melhor que a representada pelos modelos que defendem.

Estou cansado de uns e de outros. Cansado de ter que argumentar que quero mais que isso, assim como quero um STF mais qualificado, com seus integrantes escolhidos pelo perfil terrivelmente profissional e não por serem ligados à uma religião ou ideologia. 

Estou cansado de brigar com amigos e de discutir com familiares e pessoas inteligentes que reduzem tudo à dicotomia do 100% correto ou 100% equivocado.

Estou cansado dos que ignoram que o projeto da esquerda falhou ao enveredar pelo caminho da corrupção e dos interesses pessoais. Cansado dos que se aproveitaram disso para eleger um político de passado obscuro e que se revelou ignorante, autoritário e preconceituoso.

Quero o Brasil dos sonhos dos meus avós. 

4 thoughts on “Nem Bolsonarismo, Nem Lulopetismo: Brasileirismo

  • Jorge Luiz de Paula Martins

    Gerson boa noite à você e aos seus.
    O desequilíbrio se percebe quando se perde a noção do centro; daí cambaleamos ora para esquerda, ora para a direita; assim vejo a política brasileira; há que se desenvolver o sentido de centro que a meu ver, estamos longe disso. Que pena.

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  • Siomara Paciornik Schulman

    Amigo Gerson, teu texto é oque eu poderia ter escrito, com pequenas adaptaçoes, a respeito dos meus avós, e exatamente oque eu sinto , sem nenhuma alteração, sobre a situação de nosso país, que tanto amo.

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  • Claudio Madureira

    Gerson. Nao sou judeu ,mas estudei na Escola Istaelita Salomao Guelman, onde tive dezenas de amigos judeus. Sempre admirei os judeus, senão pela sua inteligência, ao menos por jamais tentarem me cooptar para sua religião ou ideologia. A situação no Brasil não é entre bolsonarismo e lulismo, é entre a nomenklatura que se apossou do nosso país e os brasileiros. Se o Bolsonaro tem peito para enfrentar essa escumalha, nossa única opção é apoia lo. Qualquer outra alternativa só aumenta o poder dessa gente que manda no país.

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  • Guy Manuel

    Gerson, é por aí mesmo! Estamos todos cansados, ainda mais nós, que já vimos muitas oportunidades de afirmação do Brasil como uma Nação justa, próspera e de muitas oportunidades.

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