Todos nós sabemos que as grandes personalidades, artistas, cantores, esportistas, empresários, etc, são muito bem assessorados e orientados em tudo o que diz respeito às redes sociais, que nos tempos atuais tem o poder de construir e destruir imagens e conceitos com a mesma rapidez.
A instantaneidade da informação é de tal ordem que um deslize costuma cobrar alto preço. Por essa razão as pessoas mais expostas e visadas pela mídia logo tornam-se PJ – Pessoas Jurídicas, com uma estrutura de marqueteiros que lhes orienta acerca do que fazer (e especialmente do que não fazer) e de como se comportar em eventos públicos e nas redes.
O escândalo que veio à tona esta semana envolvendo o Neymar fez com que muitas pessoas questionassem até mesmo a ingenuidade do jogador, que, para ficar no jargão futebolístico, jamais poderia ter entrado nesse jogo.
Sobre a questão da exposição à que o atleta se auto-submeteu, vale a pena ler a coluna de hoje da jornalista Cora Rónai, publicada no jornal O Globo:
Neymar e o Instagram: como um dos jogadores mais famosos do mundo não tem noção de como agir on-line?
Quer dizer: todos os usuários do país, um dos que mais usa Instagram no mundo inteiro, correspondem a cerca da metade do número de seguidores dessa única pessoa, Neymar. Uma conta com essas proporções é um rolo compressor de mídia como nunca houve. Cada postagem sua — seja foto de treino, selfie ou recordação de férias — tem entre um ou dois milhões de curtidas.
O Instagram não é “só o Instagram”. Faz tempo que as redes sociais deixaram de ser um parquinho de diversões inocente, sem regras e sem leis. A máquina que Neymar pôs em funcionamento contra a mulher que o acusa de estupro é descomunal, tem dimensões planetárias.
Como toda e qualquer pessoa acusada de crime, ele é inocente até prova em contrário, e tem direito à defesa — mas expor fotos e diálogos íntimos numa ferramenta com este alcance vai além de qualquer defesa razoável.
A inabilidade no uso da internet por uma pessoa com a visibilidade e o poder de comunicação real e virtual de Neymar é o dado mais impressionante de todo esse imbróglio. Acusações de estupro contra atletas famosos existem desde sempre e, muitas vezes, calham de ser verdadeiras; atletas famosos caindo em ciladas armadas por mulheres inescrupulosas também existem aos montes. Mas como é que um dos jogadores mais famosos do mundo, e que depende tanto da sua imagem, não tem noção de como agir online?
Assim como o Instagram não é “só o Instagram”, Neymar também não é “só o Neymar”. Como toda super celebridade, ele é mais do que uma pessoa física; é um símbolo, uma máquina de ganhar dinheiro e, em consequência, um produto de consumo que deveria ser mais bem assessorado. Não se entende que uma figura dessa grandeza use as suas redes com a falta de juízo de um adolescente encalacrado, sem ter ao lado alguém que lhe diga aquela palavra tão simples e necessária em terrenos minados:
— Cuidado!
Só uma investigação policial poderá determinar se houve ou não houve estupro no hotel em Paris. De acordo com as evidências apresentadas de um e de outro lado, Neymar poderá eventualmente ser inocentado. Vai ser mais difícil, porém, escapar da condenação por crime virtual.
O único aspecto positivo dessa história toda é que, com a sua visibilidade, ela talvez venha a servir de alerta para quem ainda não entendeu que a vida online e a vida real há muito deixaram de ser coisas separadas.
Para ler a coluna no jornal, clique aqui.

Imagem: Pixabay

