O Juiz, o Promotor e o Padre

Transcrevo, com enorme prazer, a saborosa cronica postada hoje por meu estimado amigo Edson Vidal Pinto em sua página no Facebook:

O Juiz, o Promotor e o Padre

Hoje, 08 de junho de 2.018, sexta-feira.

Em 1.970 assumi a Promotoria da Comarca de Carlópolis, cidade do Norte Velho localizada na divisa do Paraná com São Paulo, localizada entre Joaquim Távora (PR) e Fartura (SP).

Quando cheguei a comarca não tinha Juiz de Direito, o Juiz de Joaquim Távora, dr. Álvaro Pacoski, é que atendia os casos mais urgentes. Como eu era solteiro, fui morar no quarto de frente, que tinha uma varanda, no único hotel da cidade.

O estabelecimento estava localizado no piso superior, sendo que na parte de baixo o proprietário explorava um depósito de compra e venda de cereais. Meu quarto era amplo, tinha três camas de solteiro, uma escrivaninha e um armário para colocar roupas. O hotel era pequeno e contava ao todo com apenas cinco quartos para hóspedes, com um só banheiro coletivo.

Pela manhã era servido um magro café, com leite, pão, manteiga e mel, numa sala em que os hóspedes podiam tentar assistir televisão. Estava sempre lotado pelos vendedores que por ali circulavam nos dias de semana a fim de suprir o comércio da região. Da sacada eu avistava na frente, do outro lado da rua, os fundos da Igreja Católica e ao lado dela a praça municipal.

Eu almoçava e jantava em uma churrascaria, ponto de parada da linha de ônibus que se destinava à São Paulo. Uns três meses depois de minha 
chegada, quando estava almoçando, aproximou-se de minha mesa um rapaz que estava acompanhado do garçom, este estão me apresentou a pessoa:
– Dr. Promotor, esse é o novo Juiz da Comarca.

Depois das apresentações eu pedi que ele puxasse a cadeira e sentasse. Enquanto almoçávamos ele me disse que se chamava Ari Dorival Mazer, era casado, e morava em Londrina, onde estava sua família e duas filhas menores que estudavam no colégio daquela cidade e que por isto não iria trazer à família. Explicou que não tinha onde se hospedar porque o hotel estava lotado.

Disse-lhe que no meu quarto tinham duas camas vagas. Ficamos ambos sem graça mas foi a única maneira para acomoda-lo até vagar um outro quarto do hotel. Fizemos desde logo uma amizade que perdura até hoje. Resolvemos repartir as despesas e passamos a residir no mesmo quarto.

Toda a noite ficávamos conversando na sacada e víamos o Padre sair para dar aula. Ele lecionava no ginásio Estadual. No início ele nos cumprimentava e nós retribuíamos com acenos. Depois ele perguntou se poderia subir na sacada para conversar. E assim nasceu uma amizade inesquecível.

O Padre Carlos Staimel era de nacionalidade alemã, ele lecionava matemática e física, além de ser um excelente astrônomo. Quando terminava de dar aulas, subia na sacada e ali ficávamos horas conversando.

O Padre tinha sido soldado (Capelão) do Exército Alemão e destacado no front russo. Ele contava episódios da II Guerra, o sofrimento que viu e assistiu, o ferimento que teve com um golpe de baioneta, desferido por um soldado russo, que lhe deixou com um defeito em uma das pernas. Em muitas ocasiões levou a sua luneta e nos ensinou a  conhecer os astros e os planetas.

A cidade toda comentava da amizade do Padre com o Juiz e o Promotor. Nós três achávamos graça e brincávamos sobre isto. Nunca fui tanto à Missa como naquela época, não podíamos desprestigiar o nosso amigo Pároco. Também nunca comi tanta hóstia açucarada e tomei vinho do Padre com tanto gosto.

Foi o Ari o primeiro a deixar a comarca, pois foi removido para Andirá, cidade próxima de Londrina. E no final daquele mesmo ano fui eu, removido para Jaguapitã.

Hoje lembro com saudades daquele tempo, em que as estradas não eram asfaltadas, o telefone era precário, a televisão estava na fase embrionária, as acomodações deixava a desejar, os jurisdicionados eram respeitosos e as amizades sinceras.

Sei que o Padre Carlos está morando nas estrelas e que o Ari, também aposentado, vive com sua querida família em Londrina. E eu aqui, com minha família, escrevendo “causos” e lembrando de vez em quando, de um tempo que não volta mais…

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