Divido com vocês um belíssimo texto de Célia Musilli, publicado dia 2/2/2019 no jornal Folha de Londrina.
A Célia é jornalista, cronista e poeta. Autora dos livros Sensível desafio (2006) e Todas as mulheres em mim (2010), participou de várias publicações e coletâneas de poesia e crônica. Mestre em Teoria e História Literária pela Unicamp, atualmente é editora de cultura do jornal Folha de Londrina, como consta no site da Biblioteca Pública do Paraná.
Vejam que primor:
Minas Gerais, seus amores, seus ais
Um sobe e desce de ladeiras naturais me deram náuseas e cartões-postais
Não vou falar de Minas a partir daquela área soterrada, na qual os anjos não tiveram tempo de dizer um ai, antes de desaparecerem entre a lama, o rio, as pedras, as casas, as pontes de Brumadinho. Tantos desaparecidos que, talvez, nunca serão encontrados, a não ser na floração da serra, sempre antecipando a primavera.
Vou falar de Minas como a terra onde meus olhos se perderam, na imensidão das montanhas tocando o céu num caminho cheio de curvas, um sobe e desce de ladeiras naturais que me deram náuseas e cartões-postais.
Vou falar de Minas com a caipirice brejeira de quem se debruça nas porteiras para ver as vacas e os cavalos nas fazendas de Cruzília, onde nasceram os primeiros mangalargas, a raça que conseguiu marchar pelas montanhas.
Vou falar de Minas a partir de São Tomé das Letras, com suas casas de pedra e as montanhas carcomidas, numa atmosfera hippie de 1980, com as contas nas praças e os banhos nas cachoeiras cristalinas, que despencam nos rincões dentro das matas.
Vou falar de Minas com a melancolia de Ouro Preto e os santos de Aleijadinho, silenciosos com seus olhos de jabuticaba, olhos de pedra esculpidas pelo mestre que povoou igrejas com a mesma fé com que tomava hóstias.
Vou falar de Minas sem esquecer Belo Horizonte, seus bares e praças, seus museus cheios de móveis, oratórios e retratos, marcando a politização de um estado que deu ao Brasil centenas de heróis, além de alegria, revolta, compaixão e dor.
Sobretudo, vou falar de Minas e seus poetas do século 18, de Tomás Antônio Gonzaga que nos deu Marília e também Dirceu. Vou falar dos românticos e simbolistas do século 19, como Alphonsus de Guimarães, que escreveu o poema mais inspirado sobre a loucura, colocando Ismália numa torre que lembra as alturas das pedras seculares.
Vou falar de Minas lembrando Carlos Drummond de Andrade que nos falou das pedras no caminho e da ganância dos homens pelos minérios de sua Itabira natal. Vou falar de Minas acendendo velas a Santa Adélia Prado, poeta de catar feijões e fazer molho de batatinhas, na linguagem mais mineira da literatura nacional.
Vou falar de Minas lembrando João Guimarães Rosa, que nos levou pelo sertão e as veredas, onde se avista um dos maiores nomes da literatura mundial e sua linguagem de sotaques intraduzíveis. Vou falar de Murilo Rubião e Murilo Mendes, de Otto Lara Rezende e Henriqueta Lisboa. Vou falar de Paulo Mendes Campos por quem tenho uma paixão secreta, tão intimista quanto as salas mineiras, onde ouvi pianos.
Vou falar da Folia de Reis e seus cantadores caipiras, suas violas sentidas, seu choro dissolvido em música. Acima de tudo, vou falar de Minas rezando uma Ave-Maria pelos vivos e os mortos que vi nas torres das igrejas iluminadas pelas velas e o sol que irrompe vitrais.
Vou falar da beleza e da cultura que reluzem mais que o ouro de Minas, que inspira poemas dramáticos por suas moças tristes, seus casarões de pedra e a rua das Almas que percorri em Belo Horizonte, tomando café com pão de queijo, depois de noitadas, cochichos e cachaças.
Ah! Minha lírica e trágica Minas Gerais, como me encanta sua vida e me doem seus mortos soterrados sem ais.
Editora da Folha 2
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One thought on “Os Ais de Minas Gerais”
Beleza de crônica.