
Oskar Schindler
Svitavy, Morávia (atual República Checa), 28/4/1908
Hildesheim, Baixa Saxônia, 9/10/1974
O dia de hoje marca o 110º aniversário de nascimento de Oskar Schindler, considerado pelo Museu do Holocausto de Jerusalém “Um Justo Entre as Nações“.
Em memória do homem que salvou as vidas de quase 1.200 judeus, transcrevo matéria publicada ontem no jornal Público de Portugal, acerca dos 25 anos do filme “A Lista de Schindler” de Steven Spielberg:
Cultura-Ípsilon
CINEMA
Como Robin Williams ajudou Spielberg a rodar A Lista de Schindler
Realizador e actores do filme produzido em 1993 participaram numa sessão evocativa no Festival de Tribeca, em Nova Iorque. A emoção continuou a ser o denominador comum no reencontro dos protagonistas.
A sessão decorreu no Beacon Theatre, uma sala com 2900 lugares, e segundo os relatos da imprensa e do site do festival, a emoção foi o denominador comum entre a plateia e os intervenientes, convidados a rever a história do empresário alemão Oskar Schindler (interpretado por Liam Neeson), que salvou a vida de mais de um milhar de judeus ao contratá-los para a sua fábrica junto ao ghetto de Varsóvia, evitando a sua deportação para os campos de concentração nazis.

No final da exibição, Spielberg começou por confessar que não via A Lista de Schindler numa sala de cinema desde a estreia, quando acompanhou o lançamento na América e em diferentes países da Europa. “Foram tantos momentos, e tão intensos…”, recordou o realizador.
Logo de seguida, a moderadora, Janet Maslin – crítica de cinema no The New York Times –, perguntou-lhe como tinha vivido esta revisitação da sua obra. “Vi o filme e senti-me verdadeiramente orgulhoso; muito, muito orgulhoso”, respondeu, confessando depois que não mais voltara, na sua carreira, a experimentar a mesma sensação de ter conseguido concretizar “algo tão significativo”.
Um livro muito denso
O realizador explicou também que tomou contacto com o romance de Thomas Keneally, Schindler’s Ark, uma década antes, em 1982, quando acabara de filmar ET – O Extraterrestre. Chamaram-lhe a atenção para uma recensão crítica ao livro e recorda que demorou um mês a lê-lo. “Era muito denso. E era muito difícil, porque estava cheio de factos históricos”, notou.
Uma década depois, quando recebeu o argumento de Steven Zaillian, leu-o em conjunto com a mulher, Kate Capshaw, cada um deles a chorar sempre que terminavam uma página. E decidiu então realizar o projecto, mesmo se na altura estava a meio da rodagem de Jurassic Park (1993).
O dramatismo do tema e a atmosfera em que decorreu a rodagem do filme na Polónia e junto ao campo de concentração de Auschwitz proporcionaram, sem surpresa, os momentos mais emotivos da sessão no Beacon Theatre. Com a sua voz grave e o sotaque irlandês, Liam Neeson recordou que nesse início da década de 90 se estava a apaixonar por Natasha Richardson, com quem então contracenava na Broadway, numa peça de Eugene O’Neill, Anna Christie. Mas quando chegou ao plateau de A Lista de Schindler, na Polónia, a habitual atmosfera distendida das rodagens de Hollywood deu lugar ao silêncio e à comoção. Um dia, “eram 5h30 da manhã” – recordou o actor –, “congelava-se de frio, havia cães, e o Steven andava de um lado para o outro, com toda a gente sob grande tensão”. A certa altura, o croata Branko Lustig, um dos produtores do filme, aproxima-se de Liam Neeson, coloca o braço sobre o ombro, aponta para um dos pavilhões de Auschwitz e diz-lhe: “Vês aquele pavilhão? Eu estive ali”. “Isso bateu-me”, disse o actor. “Foi um grande momento, um grande momento. E continuei a enganar-me nas deixas, constantemente…”.
Quando a linguagem falha
A seu lado, no palco do Beacon Theatre, Ben Kingsley (que no filme interpreta a personagem de Itzhak Stern, o contabilista de Schindler) lembrou que atenuava a tensão do ambiente da rodagem trocando com Neeson sucessivos shots de “good luck vodka”. E citou o crítico literário George Steiner: “Quando usas as palavras para descrever o Holocausto, a linguagem falha”. Mas “nas mãos de um mestre”, referindo-se a Spielberg, “percebemos o que realmente aconteceu”.
O realizador tinha já também confidenciado que, agora, no visionamento do filme em Nova Iorque, o que mais o tinha impressionado fora, na sequência final depois do genérico, quando coloca os sobreviventes reais do Holocausto a desfilar junto ao túmulo de Oskar Schindler num cemitério de Jerusalém: “O olhar demorado que Emile Schindler, a sua viúva, lança sobre a campa, que ela nunca tinha antes visitado”. “Isso bateu-me agora verdadeiramente, pela primeira vez”, acrescentou Spielberg, que na altura da rodagem não se tinha apercebido da intensidade do momento por se encontrar atrás da câmara.


