Quando a Barbárie Invade as Festas

O Natal deveria ser tempo de encontro, acolhimento, reconciliação.

Um período em que se fala de paz, de família, de esperança.

Mas, enquanto muitos celebravam, em São Paulo a família de Tainara Souza Santos, de 31 anos, chorava a dor de sua morte, ocorrida exatamente na noite de quarta-feira, dia 24. Pouco menos de um mês antes, em 29 de novembro, Douglas Alves da Silva, de 26 anos, com quem ela havia tido um breve relacionamento, avançou contra Tainara com um carro durante uma discussão motivada por ciúmes.

Ela ficou presa sob o veículo, foi arrastada por cerca de um quilômetro sem que ele parasse para prestar socorro e, ainda naquela noite, no Hospital das Clínicas, teve as duas pernas amputadas. Ao longo do período de internação, passou por múltiplos procedimentos cirúrgicos, incluindo mais uma amputação, na noite de seu falecimento.

É impossível não destacar o contraste brutal entre a barbárie do ato e o clima de comunhão das festas de fim de ano.

Esse crime não é apenas mais um número nas estatísticas do feminicídio – que, no Brasil, ocorre à razão de uma mulher assassinada a cada quatro horas. Ele agride algo ainda mais profundo: a noção mínima de humanidade. Choca, revolta,  faz a gente adoecer.

Para quem já viveu bastante – como muitos de nós, da minha geração – esse tipo de notícia tem um impacto especial. Não é apenas indignação. É perplexidade. É a sensação dolorosa de que, apesar de todo o discurso sobre progresso, empatia e direitos, ainda convivemos com atos que remetem à Idade das Trevas.

Talvez doa mais porque crescemos acreditando que o mundo caminharia, ainda que lentamente, para menos violência – e não para cenas tão cruéis, tão desumanas, tão sem volta.

Talvez o mais perturbador não seja apenas o crime em si, mas a forma como ele chega até nós: diluído em manchetes, disputando atenção com a previsão do tempo, receitas de fim de ano, promoções de supermercado e o trânsito rumo à praia. A repetição cotidiana da barbárie parece nos anestesiar. Chocamo-nos por alguns instantes – e seguimos adiante.

Quando essa violência é o feminicídio, essa anestesia se torna ainda mais perigosa. Porque não se trata de um ato isolado, mas de um padrão. De controle, de ódio, de posse. De homens que se sentem autorizados a decidir sobre a vida – e a morte – de mulheres.

Que o contraste entre o espírito das festas de fim de ano e crimes como esse nos sirva, ao menos, como alerta. Silêncio, indiferença e banalização também matam.

Que não falte memória.
Que não falte indignação.
E que não falte coragem para dizer: o horror não pode ser normalizado.

Imagem: Alina Chernovolova/Unsplash

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