Esta é a segunda coluna que escrevo com esse título, que utilizei muitos anos atrás, em outro contexto.
A frase em latim significa “Ave, César, os que vão morrer te saúdam” e é associada aos gladiadores que, antes dos combates no Coliseu, saudavam o imperador romano. Os historiadores, porém, esclarecem que a expressão não era uma saudação habitual: foi registrada apenas uma única vez.
Ainda assim, ela traduz bem um sentimento que de vez em quando acomete aqueles que já percorreram uma longa estrada. Falo dos integrantes da minha geração, os que costumam dizer, misturando humor e resignação, que já possuem mais passado do que futuro.
Não sou uma pessoa amarga, nem acredito que tudo era melhor antigamente – muito pelo contrário. Procuro viver de acordo com o meu tempo. Reconheço que o passado tinha coisas boas, mas também carregava preconceitos, injustiças e limitações que aos poucos foram superados. As novas gerações reformularam costumes, derrubaram barreiras e até criaram direitos que merecem ser reconhecidos e valorizados.
Mas há momentos em que somos tomados pela sensação de que, apesar de todo o progresso material e tecnológico, estamos perdendo algo essencial em termos de humanidade.
Foi exatamente essa sensação que me ocorreu ao tomar conhecimento do caso ocorrido em Guarapuava, aqui no Paraná.
Segundo as autoridades, um casal de idosos viveu durante cerca de vinte anos em condições análogas à escravidão em uma propriedade rural. O homem, hoje com mais de oitenta anos, morava com a esposa, também idosa, em um paiol adaptado, sem condições dignas de habitação, trabalhando sem os direitos mais elementares assegurados pela legislação brasileira.
Quando lemos notícias assim, a primeira reação é de incredulidade. Em seguida vem a indignação. E, por fim, uma vergonha difícil de descrever: a vergonha de pertencer à mesma espécie capaz de produzir tamanha crueldade e indiferença.
É difícil acreditar que alguém possa manter outro ser humano nessa condição durante duas décadas sem que, em algum momento, deixe de enxergá-lo como pessoa.
Talvez seja por isso que notícias como essa nos atinjam de maneira tão profunda.
Não porque sejam inéditas. Infelizmente, não são.
Nem porque mostram alguma coisa que desconhecíamos sobre a capacidade humana para a crueldade. A História está repleta de exemplos – o Holocausto é um deles.
O que nos choca é perceber que tudo isso continua acontecendo em pleno século XXI, num país que se orgulha (se orgulha?) de suas leis, de suas instituições e de seus avanços sociais. O bicho-homem continua enviando naves ao espaço, realizando transplantes cada vez mais complexos, avançando na ciência e carregando no bolso aparelhos capazes de nos conectar instantaneamente ao mundo inteiro. Mas ainda somos capazes de fechar os olhos para o sofrimento de quem está logo ao nosso lado – aliás, é o caso de perguntar: será que os vemos como Humanos?…
Talvez seja essa a sensação que, às vezes, acomete os que já viveram bastante. Não a de que o mundo esteja necessariamente pior, mas a de que ele continua falhando nas mesmas questões fundamentais.
Mudam as tecnologias, mudam os costumes, mudam as palavras e até os valores, mas a grande questão permanece a mesma desde sempre: somos capazes de reconhecer a humanidade do outro?
Quando a resposta é não, pouco importa em que século vivemos.
E então nós, com mais passado do que futuro, olhamos para notícias como a de Guarapuava e sentimos uma tristeza difícil de explicar. Não pela idade que temos, mas pela constatação de que o mundo precisa aprender lições que a civilização deveria ter assimilado há muito tempo.
O ‘Ave Caesar’, assim, não é uma saudação ao imperador e sim um lamento por todos aqueles que, ainda hoje, continuam sendo tratados como se suas vidas valessem menos do que as dos demais.


