5 de janeiro de 2026. Primeira segunda-feira do ano. Depois de alguns dias de dolce far niente, o Brasil volta a funcionar – pelo menos para alguns.
Voltando ao trabalho ou não, muitos dizem que a virada do calendário não altera absolutamente nada; há até um poema que pergunta “quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias”. Verdade ou não, esse início de ano costuma ser um período propício para elaborar pensamentos, refletir, reorganizar prioridades.
Foi assim que pensei em escrever sobre a história de uma jovem de 27 anos que sabia que seu fim estava próximo, e deixou um conjunto de conselhos de vida. Sua história mostra que viver intensamente não é sinônimo de viver sem dor. E quando essa verdade nos alcança – seja pela doença ou despedida precoce de alguém – somos forçados a rever prioridades, adiamentos e falsas urgências.
E é nessa linha que este início de ano é um momento oportuno para lembrar dela: Holly Butcher, uma australiana de 27 anos que morreu em 4 de janeiro de 2018 – exatos oito anos atrás. Ela sofria de sarcoma de Ewing, um tumor maligno, e durante o tratamento usou as redes sociais para compartilhar reflexões, sugerindo, entre outras coisas, que as pessoas “reclamassem menos e ajudassem mais”.
Logo após sua morte, familiares publicaram no Facebook uma carta deixada por ela, na qual Holly compartilhou algumas recomendações:
“É uma coisa estranha perceber e aceitar a própria mortalidade aos 26 anos. Isso é algo que simplesmente ignoramos. Os dias passam, e você espera que eles continuem vindo… até que o inesperado acontece. Eu sempre me imaginei envelhecendo, ficando com rugas – provavelmente causadas pela minha linda família, cheia de crianças. Eu planejava construir isso com o amor da minha vida.”
Em seguida, escreveu:
“A vida é frágil, preciosa e imprevisível. Cada dia é um presente, não um direito. Tenho 27 anos agora. Não quero ir. Eu amo a minha vida. Estou feliz. Devo isso às pessoas que amo. Mas o controle está fora das minhas mãos.”
E deixou uma série de conselhos:
“Parem de se preocupar tanto com coisas pequenas e tensões insignificantes. Tentem lembrar que todos temos o mesmo destino. Façam o possível para que seu tempo seja incrível, sem besteiras.”
“Quando estiver reclamando de algo ridículo, pense que alguém está enfrentando um problema real. Seja grato pelo seu pequeno problema. Não faz mal reconhecer que algo é irritante, mas tente não carregar isso a ponto de afetar negativamente o dia de outras pessoas.”
Holly aconselhou ainda que, nesses momentos, é importante sair e respirar:
“Veja como o céu é azul e como as árvores são verdes. É tão bonito. Pense como você é sortudo por poder fazer isso: respirar.”
Ela sugeriu parar de se preocupar com trânsito, cabelo ou celulite:
“Tudo isso se torna insignificante quando olhamos a vida como um todo. Estou vendo meu corpo desaparecer diante dos meus olhos, e não há nada que eu possa fazer. Tudo o que desejo agora é mais um aniversário, mais um Natal com a minha família, ou apenas mais um dia com meu parceiro e meu cão.”
Também alertou sobre a obsessão com a forma física:
“Lembre-se de que há muito mais aspectos da saúde além do corpo físico.”
E foi direta:
“Reclamem menos, pessoal. E ajudem mais uns aos outros.”
“Dê, dê, dê. Você ganha mais felicidade fazendo coisas pelos outros do que por si mesmo.”
“Gostaria de ter feito mais isso.”
Sobre dinheiro e consumo, escreveu:
“Use seu dinheiro em experiências.”
“Compre algo para seus amigos em vez de mais um vestido. Leve-os para comer fora ou, melhor ainda, prepare uma refeição. Dê uma planta, uma massagem, uma vela – e diga o quanto os ama.”
“Não perca experiências porque gastou todo o dinheiro com coisas materiais.”
E concluiu:
“Se algo está deixando você infeliz – no trabalho, no amor ou onde for – tenha coragem de mudar. Você não sabe quanto tempo tem nesta terra. Não desperdice sua vida sendo miserável.”
Holly terminou a carta incentivando ações concretas:
“Comece doando sangue. As doações que recebi me mantiveram viva por mais um ano. Um ano pelo qual serei eternamente grata, passado com minha família, meus amigos e meu cachorro. Um ano em que vivi alguns dos melhores momentos da minha vida.”
De tudo isso, o que fica neste início de ano e retorno à rotina talvez seja o maior ensinamento dessa jovem: não viver como se tudo fosse urgente. Parar de adiar o que importa. Fazer o que dá para fazer hoje. Dizer o que precisa ser dito. Valorizar o que – e quem – está perto da gente, enquanto ainda está.
A vida não avisa. Não manda WhatsApp.
Dito isso, desejo que meus queridos leitores tenham um ano muito feliz e, como costumo dizer, com abundância de tudo o que lhes faz bem.
Imagem gerada por I.A.

